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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

entrevista: SUBDARK

Os SUBDARK podem muito bem ser um dos grandes "segredos" escondidos do undertuga! Depois do EP "Noir Coating", os portuenses voltaram à carga em 2012 com o álbum de estreia "Infinite Walls"! Enviámos algumas perguntas para os Subdark que nos responderam prontamente e de forma bem elucidativa!


MEB: Como vão os Subdark e as coisas por aí no Porto?

SD: Vão muito bem, acabamos de ter um concerto na Torre de Moncorvo e foi mais uma experiência bastante enriquecedora.
Continuamos a promover o nosso álbum Infinite Walls e à procura de mais concertos.

MEB: Para quem não vos conhece, façam um breve resumo da vossa história, como surgiram, etc.

SD: A banda formou-se em 2005 com o propósito de gravar um álbum de originais. O objectivo seria o de criar algo musicalmente excitante sem que para isso tivéssemos uma ideia concebida de antemão do que nos iríamos tornar. Tomámos o nosso tempo a desenvolver a nossa sonoridade e a enriquecer musicalmente. Foi então que em 2009 gravamos o EP "Noir Coating" como uma primeira abordagem a um registo gravado. Foi incrivelmente bem recebido, e isso deu-nos motivação para prosseguir em frente e gravar o álbum "Infinite Walls" em 2011 no qual a nossa atenção agora se deposita. Definiríamos o nosso som como uma mistura de imensas influências muito díspares que surgem em pequenas doses. No entanto, os momentos centrais das nossas composições recaem sobretudo no death em que jogamos com alguma progressividade com o jogo entre intensidades e velocidades.

MEB: O EP "Noir Coating" recebeu boas críticas na generalidade e foi um bom cartão de visita. Temos ali três músicas com um sabor diferente do habitual por cá. Como correu essa divulgação e, já agora, a vossa opinião acerca do EP?

SD: Foi muito desafiante na altura gravar o "Noir Coating". Já conhecíamos o Paulo Lopes dos estúdios Soundvision, e gravámos o EP com muita seriedade. Escolhemos 3 músicas muito distintas, diante de muitas que tínhamos preparadas, para podermos expor de maneira muito resumida o nosso som. A opinião que temos do EP é a de um esforço colectivo extremamente bom. Felizmente a nível de críticas, tal ideia confirmou-se. Foi sem dúvida um reconhecimento do nosso trabalho que nos deixou muito empolgados e com vontade de seguir em frente. Notamos que o EP deixou alguma curiosidade no ar e que fez com que as pessoas se mantivessem atentas aos nossos movimentos e de certa forma antevissem e procurassem activamente o lançamento do "Infinite Walls".

MEB: O álbum de estreia "Infinite Walls" mostra uma banda madura, fiel a si própria e de espírito independente. Quais as vossas expectativas pessoais quando iniciaram a composição deste registo?

SD: Este álbum marca o cumprimento do primeiro objectivo e obviamente que depositamos as nossas mais altas expectativas neste álbum. É afinal o culminar do nosso já relativamente longo período de existência. Durante a composição dos temas, tal contudo não nos passou pela cabeça. Passamos por um período de grande inspiração e grande parte deste trabalho ficou pronta muito rapidamente. As músicas fluem de forma muito natural e nós simplesmente deixámo-nos levar.
Chega até a parecer que alguns dos temas ganharam vida própria e se compuseram sozinhos. Exemplo disso é a parte do solo da música "Sowing the Lunacy" que dura 4 minutos e foi gravado exactamente da forma que saiu à primeira vez que alguma vez a tocamos. Isso são pequenos detalhes que nos fazem sentir que a musicalidade do trabalho é muito profunda e que terá o potencial de chegar a muitas pessoas, mesmo tendo em conta que o género não é necessariamente "fácil".


MEB: As letras são intrincadas, parecem-me peças de um puzzle em que o ouvinte/leitor terá de se esforçar para descortinar a mensagem. Querem levantar um pouco o véu sobre o conteúdo lírico de alguns temas?

SD: Os temas recaem sobretudo acerca do conceito do álbum. Interpretá-los não será fácil, pois também não existe uma interpretação única dos mesmos. As temáticas centrais recaem nomeadamente sobre o espaço, a sua infinidade, a mente, a sua complexidade e o seu potencial. Quando pensamos por exemplo na infinidade do espaço, podemos falar que nos invade um sentimento de fragilidade, de quase insignificância. Contudo o modo como cada pessoa sente e absorve esse estado de espírito é-lhe pessoal e é dificilmente expressável por palavras. Desse mesmo modo, as letras serão interpretadas pela forma como cada pessoa as sente. As letras deste álbum são fragmentos de algo muito maior. Para descobrir isso cada um terá que ligar esses fragmentos da forma que achar correcta. Mesmo dentro da banda, cada um sente as letras de uma forma muito diferente. As letras de "Infinite Walls" são como que uma pintura abstracta em que cada um irá ver aquilo que quer ver.

MEB: Não sendo um álbum fácil às primeiras audições, como achas que será a reacção das pessoas?

SD: De facto o álbum necessita de uma certa atenção aquando da sua escuta. Trata-se de um trabalho com muitas subtilezas que não fazem sentido a um ouvido mais distraído. No entanto, achamos que essas tais subtilezas, quando compreendidas, dão uma dimensão muito superior à intensidade das músicas. Sabemos que há ouvintes que procuram músicas orelhudas que chamem directamente à atenção. No entanto, esse tipo de música entra-nos na cabeça com a mesma facilidade com a qual irá eventualmente sair. Aqui sabemos que vai ser mais difícil atrair ouvintes mas que os que derem uma merecida oportunidade ao álbum irão tirar uma satisfação maior e mais duradoura e sentirão uma maior intensidade ao longo do álbum.

MEB: Vocês vão dando um passo de cada vez, seguramente e sem pressas, não tendo urgência de reconhecimento rápido e fácil. Acham que essa é a melhor arma de um artista, ou seja, o facto de não criar muitas expectativas com o impacto que a sua obra possa ter sendo totalmente livres no acto da criação?

SD: A melhor arma de um artista é criar música que goste. É isso que fazemos e sentimos que desta forma ninguém nos pode acusar de nada. Adoramos o que tocamos. Tocamos com paixão à música e nisso somos intocáveis!

MEB: Existem bastantes bandas no Porto e arredores, ensaiam muitas bandas no mesmo local onde vocês também ensaiam (Centro Comercial Stop). Como é o ambiente entre-bandas e como co-habitam? Há união em iniciativas, inter-ajuda, etc?

SD: O Stop é um mundo em termos musicais. Há muita cooperação naquele espaço. A irmandade que se vive está por exemplo num concerto no Stop para angariar fundos para uma sala cujo material ardeu durante um incêndio. São situações que nos fazem ver o poder da música na sua capacidade de aproximar as pessoas.

MEB: Como se vêm numa formação a 3? Torna-se mais fácil o processo de composição, comunicação entre elementos ou não é por aí?

SD: Não sabemos ao certo porque não temos experiências de ter bandas com mais elementos. No entanto, todos nós já tivemos outros projectos e não sentíamos a ligação que se sente nesta banda. A comunicação transcende as palavras. Quando improvisamos algo ou compomos algo novo existe uma aura que nos encaminha a todos numa mesma direcção. Sentimos isso uns nos outros. Sabemos perfeitamente o lugar de cada um na banda e daí vem uma coesão que nos caracteriza.



MEB: Últimas palavras e mensagem para o pessoal. Obrigado!

SD: Agradecemos a entrevista, desejando a melhor das sortes para o vosso jornalismo. Gostaríamos de relembrar que o nosso EP está disponível para download gratuito no nosso facebook - www.facebook.com/subdarkpt . Na página também poderão saber como encomendar o álbum "Infinite Walls" e ver também o merchandise disponível para venda. Ao adquirir o nosso trabalho estão-nos a ajudar directamente. Cheers!!

(entrevista elaborada por: Rui Vieira)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

entrevista: KONAD

Quando nos lembramos de Beirute, possivelmente, virá à cabeça de muita gente a palavra... guerra. Se acrescentarmos o prefixo máquina, teremos os KONAD: a actual máquina de guerra de Vila Franca de Xira! "Café Beirute" é o 1º álbum do trio destruidor formado por Kampino, Frazão e David. Por intermédio das novas tecnologias, trocámos umas perguntas com o baterista/vocalista Kampino para ficarmos a saber um pouco mais deste manifesto de combate e se alguém vai sobreviver a todo este poder de fogo!


MEB: Antes de mais, parabéns pelo vosso excelente álbum! Sem dúvida que construiram algo muito cativante e que flui como cerveja! Como decorreu o processo de composição e o que tinham em mente quando iniciaram este novo capítulo?

Kampino: Viva Rui! Obrigado! Ora, o "Café Beirute" levou quase 2 anos a ser concebido até chegar à edição em CD. No início, apenas tínhamos decidido fazer um disco mais bruto e fodido do que tínhamos feito até então. No fundo, quisemos introduzir as nossas referências que advêm do thrash metal na nossa sonoridade mais punk/hardcore. Inicialmente, andámos à procura de uma sonoridade, o que fez com que tivéssemos preparado algumas 40 ideias para músicas. Depois fomos seleccionando os temas que mais se enquadravam com aquilo que pretendíamos.

MEB: E qual a vossa opinião sobre o resultado final de "Café Beirute"?

Kampino: Bom, na minha opinião, acho que ficou um disco muito bom. Conseguimos integrar diversos elementos de forma coerente. Face ao trabalho que tivemos para o concretizar, sinto-me muito satisfeito com o resultado final. Foi uma produção DIY, todas as captações de instrumentos e misturas foram realizadas por nós. Apenas a masterização foi realizada nos Endarker Studios, que ajudou a dar mais ambiente ao disco. Foi um processo longo... Sentimos apenas algumas dificuldades de divulgação pelo facto de não termos então uma rede de contactos muito alargada e não termos nenhuma editora/distribuidora que permitisse um maior suporte de difusão do disco. Ainda assim, penso que conseguimos chegar a muita gente que recebeu bem o disco e isso reflectiu-se nos concertos que fomos dando pelo país.

MEB: "Café Beirute" apresenta muita diversidade, desde a agressividade extrema de "Mákina de Guerra", às passagens de cariz oriental do tema título e terminando na "Vaka Cinzenta", a pérola que encerra o álbum. Vocês juntam um pouco dos vários mundos. Assim é k estão bem?

Kampino: Sem dúvida. Conseguimos ter um som pesado e manter a nossa veia punk/hardcore ao de cima. Assim é que estamos bem. A ideia é seguir uma linha mas tecê-la de várias maneiras. É preciso é sentir que o que fazemos é fluído e nos agrada.


MEB: Porquê "Café Beirute"? Vivemos no caos e caminhamos para a destruição total?

Kampino: Bom, por incrível que possa parecer, a verdade é que o David surgiu com esse título antes de termos composto o que fosse. Serviu de guia de inspiração para a composição. Fez-nos pensar nas tensões ocidente/oriente, no choque de culturas, tolerância/intolerância, guerras e guerrilhas... Alguns temas do álbum derivam destas ideias. Ainda chegámos a falar, mais tarde, num outro título, mas decidimos manter "Café Beirute". Sem dúvida que vivemos tempos conturbados a vários níveis, mas é difícil prever o caminho. A história está recheada de episódios transformadores das sociedades.

MEB: Sinto um cada vez mais carregar no pedal da vossa parte. O que nos pode esperar um novo capítulo de Konad? Ainda mais pesado e extremo? Podemos imaginar uns Konad totalmente thrash ou a costela punk estará sempre presente neste projecto?

Kampino: Penso que, no curto prazo, vamos continuar nesta senda de som mais duro, mas a costela punk estará sempre presente. Bebemos muita coisa do thrash-metal, cujas referências remetem-nos para o início da nossa formação musical, e resolvemos integrá-las. Bebemos muito também do crust, d-beat, hardcore... É difícil ter uma única matriz como referência. Esta mudança na sonoridade foi uma evolução natural, uma forma de alinharmos os nossos gostos musicais individuais e continuarmos satisfeitos enquanto banda. Em suma, actualmente andamos muito ali pelo hardcore/crust/d-beat e assim vamos continuar para já. Estamos, aliás, já a definir as linhas para o próximo disco.

MEB: Como se vêm inseridos no panorama nacional? Acham que podem ser muito punks para metálicos e muito metálicos para punks?

Kampino: Sim! Antes do "Café Beirute", acho que estávamos mais integrados numa corrente mais ligada ao punk. Com a integração de elementos mais pesados e agressivos nas nossas músicas, conseguimos chegar a pessoal mais virado para o metal. Talvez possa acontecer um pouco isso como descreves, às vezes notamos isso, não somos tipicamente uma banda de metal nem tipicamente uma banda de punk rock... Siga!!!!

MEB: Sentem-se mais confortáveis a cantar em português? Faz mais sentido tendo em conta o país e o que pretendem transmitir de uma forma mais directa e certeira?

Kampino: Boa pergunta... Desde a primeira formação dos Konad Moska que temos cantado em português. Pessoalmente, gosto. Consigo exprimir-me melhor em termos linguísticos. Embora reconheça que às vezes até seria mais fácil enquadrar textos em inglês nas músicas. Quando começámos dirigíamo-nos às pessoas que estavam à nossa volta e viviam o nosso mundo, e acho que ainda assim é... Mas creio também que partilhamos ideias e ideais com outras pessoas do mundo. A música é a linguagem. Não interessa a língua que utilizas se conseguires transmitir sentimentos.

MEB: Vocês (Kampino e Frazão) fizeram parte dos míticos Encancrate e já lá vão quase 20 anos. Como vêm a "cena", o meio underground, pessoal, etc? Está tudo na mesma?

Kampino: Bom, igual nunca poderia estar, os tempos são outros. Não sei se há mais ou se há menos bandas, mas creio que posso afirmar com segurança que há mais qualidade. Porra, tens aí várias bandas nacionais a tocar muito bem e a fazer grandes temas em diversos estilos musicais. Talvez aqui a nível local a cena já não respire tão profundamente como nesses tempos, mas mesmo assim têm surgido nestes últimos anos uma nova vaga de bandas muito boas. Ainda vão havendo muitas iniciativas na realização de concertos e festivais, mais ou menos underground, um pouco por todo o país. Embora, creio que ainda falte um circuito mais bem definido e sustentável. Os recursos e apoios também são escassos. Mas a arte e a cultura estão presentes.


MEB: E sobre estas novas formas de comunicar (Facebook's e quejandos), que aspectos positivos e negativos podem mencionar?

Kampino: Olha, em termos de canais de comunicação e divulgação as coisas são positivas. Chegas a mais gente e de forma quase instantânea em qualquer parte do mundo. Tenho conhecido também muita boa banda através da internet, que dificilmente doutra forma chegaria a elas. No entanto, a sobrecarga de informação também dispersa muito a atenção. Poderá haver até uma tendência na banalização dos consumos musicais, não sei... É difícil estar em todas e, mesmo com toda esta panóplia de informação, procuro direccionar os meus consumos musicais para o que mais me interessa, no sentido de pesquisa e conhecimento. Ainda quero conhecer...

MEB: Últimas palavras e mensagem para o pessoal. Obrigado!

Kampino: Eh pá, que continuem a fazer e a ouvir muita música. Como “imaterial” que é, alimenta o espírito... para mim, é um porto de abrigo.

(entrevista elaborada por: Rui Vieira)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

entrevista: MACHINERGY

O disco de estreia foi lançado em Setembro de 2010, um passo decisivo para uma banda que, apesar dos curtos anos sob o nome MACHINERGY, transporta consigo um espírito bem mais veterano, a que não serão alheios os laços de amizade que unem os membros deste trio!
Para o depoimento presente, foi requisitada a preciosa troca de ideias com Ruy (guitarra/voz) e Helder (bateria), para que não ficassem assuntos por debater, nem perguntas sem resposta




Como se sentem os MACHINERGY, num momento em que o vosso album de estreia vê finalmente a luz do dia?

Ruy: É verdade, finalmente! É claro que este “finalmente” é mais para nós do que para qualquer outra pessoa pois não estamos a falar propriamente de um “Chinese Democracy”, versão portuguesa, eheh! Estamos muito satisfeitos com o lançamento do disco e com tudo acerca dele pois constitui um marco extremamente importante, talvez o mais importante, que está e vai definir a nossa carreira e o nosso futuro daqui para a frente. Foi uma longa jornada, de muito trabalho e dedicação! É claro que agora é que as coisas vão começar a rolar e a desenvolver e há muitos desafios pela frente, algo que nos agrada e que vamos abraçar! O tempo de “brincar” às bandas já acabou e agora é para jogar a sério, jogar tudo, eheh! Este disco era mesmo o que faltava como motor de arranque para todos os nossos projectos e penso que daqui em diante só pode melhorar!

Apesar da banda ter sido criada apenas em 2006, vocês já referiram algumas vezes que “Rhythmotion” é um sonho de vinte anos que se concretizou! Expliquem lá isso melhor:

Helder: Finais dos anos 80, andávamos na escola e passávamos o tempo a ouvir e a descobrir novas bandas nos intervalos das aulas. Daí até querermos formar uma banda foi um saltinho. Então, nessa mesma escola, um dia ouvi dizer que alguém andava a formar uma banda e nesse mesmo dia fui falar com o Ruy. Inicialmente, a vaga de baterista já estava ocupada, eheh! Havia uma vaga de guitarrista, mas depressa as coisas mudaram. Até então, só nos cadernos e livros da escola é que surgia um line-up com a denominação de “Mortalha”. Depois de ajustarmos as competências de cada um, lá começámos a ensaiar, mas foram surgindo novos projectos e as coisas tomaram outros rumos. Só com Machinergy é que surgiu a oportunidade de gravar um álbum, outra maturidade, mais condições. Portanto, é um sonho realizado, sem dúvida! Tínhamos 16, 17 anos de idade quando tudo começou.

No que diz respeito a gravações, muitas bandas iniciam o seu percurso recorrendo ao registo de uma demo ou mesmo um EP, mas os MACHINERGY apostaram desde início num longa-duração. O que os levou a embarcar nessa decisão?

Ruy: Queres que te diga sinceramente?! Já não temos idade para demos e EP’s, eheh! A sério, e sem desprimor para qualquer dos formatos e/ou bandas que optem por tal solução, com Machinergy isso nunca iria acontecer pois uma das condições que auto-impusemos logo no arranque da banda foi o de gravar um LP (sigla mais linda!). Compusemos e já tínhamos algum material que reciclámos com vista a esse objectivo e tudo foi canalizado para esse fim. É claro que gravamos demos e EP’s mas com outros projectos. Com Machinergy, penso que só podem esperar LP’s e, daqui por vinte anos, talvez um “Worst Of...”. :)

Esse material reciclado de que falas, eram ideias que foram ficando na gaveta ao longo dos anos ou coisas das antigas bandas/projectos, por onde vocês passaram, que não chegaram a ver a luz do dia? Como é que separaram o trigo do joio?

Helder: Foi mais tirar a “gordura da carne”, eheh! Sempre achámos que eram temas interessantes e como nunca tinham sido registados resolvemos pegar neles e os “muscular”. Houve uma necessidade de alterar algumas coisas, eliminámos alguns pormenores sem sentido, acrescentamos outros e começaram a soar a Machinergy, sempre de uma forma natural, simplesmente deixámos sair cá para fora as ideias que iam surgindo. Aliás, Machinergy aparece quando resolvemos “dar uns toques” para recordar velhos tempos e agarrámos no tema “Rhythmotion”, que dá título ao álbum, um tema que ficou bem diferente da versão inicial e que teve algumas estruturas bem diferentes antes de chegar a esta versão final. “Rhythmotion”, “Godus”, “Rewine” e “Moneytrees” foram os temas que resolvemos tirar da gaveta. Todos os outros nasceram já com Machinergy, tendo sido o “Blakus” o primeiro.

Referem no vosso press-release que passaram por um longo processo de gravação, mas nunca tiveram acessos de ansiedade pelo meio? Aquela vontade de acelerar um pouco mais as coisas para lançar o album um pouco mais cedo?

Helder: Queríamos fazer o melhor possível, sem complicar e dentro das nossas possibilidades. Tivemos tempo para compôr, ouvir, mudar e analisar, sem pressas e o álbum foi crescendo à medida que o registávamos. E como toda a produção foi feita por nós, antes de nos aventurarmos, tivemos que delinear bem a estratégia e aprender como iríamos levar este barco a bom porto. Tivemos que comprar equipamento e decidir muita coisa. E uma coisa muito boa é que não tínhamos o “stress” do relógio do estúdio a contar, eheh!



Acham que a experiência que adquiriram com a gravação deste disco vai suavizar um pouco mais as coisas para as gravações futuras? É costume dizer-se que só custa a primeira vez...

Ruy: Sem dúvida! Antes de mais, há que referir que aprendemos muito ao longo dos anos com as várias passagens por estúdios e também observando e ouvindo as experiências de outras pessoas ou bandas. A aventura de seres tu a gravar e a “comandar” tudo, é um enorme e difícil desafio mas é bom pois consegues quase sempre reproduzir o teu pensamento, por assim dizer. Explicar certas coisas a um produtor, às vezes é uma tarefa complexa e frustrante, para ti e para o produtor, seja por não conseguires definir com exactidão o que queres, seja porque o produtor não tem o background necessário, etc! Há muitos factores. De qualquer maneira, ao fim e ao cabo, o que importante é uma banda ter e definir um método de trabalho e ser sempre exigente e “master” da sua arte. Experimentar é essencial e, como tal, não se deixem derrotar à primeira dificuldade, tipo “deixa lá...”, “fica assim, sa lixe!”, etc e tal... Por exemplo, a pré-produção é muito importante, e não só das músicas. Pelo menos para nós, tudo é importante num disco, mesmo se é ou venha a ser, aparentemente, simples. Cedo devemos começar a trabalhar nas várias vertentes e ideias de um novo trabalho de forma a criar um todo, um fio condutor. Para mim, gravar um álbum não é o mais importante. O mais importante é gravar um álbum do qual tu ficarás orgulhoso para todo o sempre e que te dá prazer contínuo ao ouvir e ao tocar! Façam uma experiência: Gravem ou escrevam/rabisquem qualquer coisa e oiçam mais tarde. Quando voltarem a ouvir e se continuarem a gostar do que fizeram, está feito, não mexam mais que não se vão arrepender disso, eheh! Já que estamos a falar de estúdio, deixa-me dizer que o Helder foi e é o produtor de serviço de Machinergy. É ele que estuda os manuais, procura perceber toda e qualquer função dos botões, grava, mistura, etc! Eu não! Eu não tenho paciência para isso e, para além desse facto, para mim o estúdio é um autêntico martírio! Fico completamente seco! Ah... e as pessoas têm de ter muita paciência para me aturar, eheh! De qualquer maneira, apesar de alguma experiência, uma próxima gravação vai ter sempre o seu “stress” pois vais querer mais, ou como diz o outro: “... padrõezinhos para cima!”! Mas quando percebemos o maquinismo das coisas, sem dúvida que facilita!

De que forma pensam atingir esse ‘mais’? Não devem existir muitos atalhos para esse tipo de objectivo, pois não?

Ruy: O atalho é: Trabalho! O atingir esse “mais” prende-se com querer melhorar tudo a cada dia que passa. Melhorar a composição, a performance em palco, o material com que tocas, arriscar certas coisas, ser um pouco diferente também, etc. A verdade é que estamos muito estusiasmados com esta banda e este projecto e queremos dar o nosso melhor! Estamos com uma grande pica e isto dá-nos um gozo tremendo, independentemente de tudo! Portanto, acho que reunimos as condições essenciais para continuar por longos anos, eheh!

O facto de utilizarem um estúdio próprio, não só para ensaios, mas também para gravações certamente representa uma mais valia para todo a evolução da música dos MACHINERGY, certo? Vocês têm noção que são uma banda privilegiada nesse sentido?

Helder: Principalmente quando tens um elemento na banda como o Ruy, eheh! O quanto custaria uma banda aturá-lo, eheh?! Estou a brincar! Somos os dois exigentes, um de uma maneira e o outro de outra, tentamos puxar um pelo outro. Eu gosto de experimentar várias maneiras de se fazer uma coisa e isso faz um pouco de “confusão” ao Ruy, talvez por... como ele diz: “... não tenho paciência para isso...”, mas no fim ele acaba sempre por dizer “altamente!”, eheh! Somos dois velhos amigos, que trabalhamos para o mesmo, com os nossos feitios, as nossas “exigências” e, portanto, temos aqui o nosso “working place”, que nos traz algum orgulho e privilégio. Podemos trabalhar sem correrias e permite-nos realizar e experimentar todas as ideias loucas que nos vêm à cabeça, eheh!

Provavelmente ainda será cedo demais, mas não custa perguntar, os MACHINERGY já andam a trabalhar em novos temas e num novo registo ou neste momento a concentração está colocada em tocar o “Rhythmotion” o mais possível ao vivo?

Ruy: No fundo, andamos a fazer as duas coisas ao mesmo tempo! É óbvio que estamos mais concentrados e empenhados em promover o “Rhythmotion”, seja através de divulgação pelos média, seja com actuações regulares em vários pontos do país, etc. Este é o momento e estamos a trabalhar para levar a nossa arte ao maior número possível de pessoas. Mas nunca descuramos a parte de composição. Estamos sempre a fazer qualquer coisa nova, seja com Machinergy, ou então, com outros projectos paralelos que temos e que não se limitam somente à vertente musical. Mas neste momento, posso adiantar que já há material novo e que poderá, eventualmente, entrar numa segunda rodela. Temos optado por um método que julgamos nos poderá ser benéfico para futuro. Vamos criando as músicas e, paralelamente, vamos tocando ao vivo também, numa forma de maturar o material e limar arestas e, porque não, também recebermos algum feedback do pessoal. Temas como “Sounds Evolution”, “Venomith”, “Cada Falso” ou “Paraphernalia”, que não estão no disco de estreia, já andam por aí em airplay, eheh! Agora, se vão aparecer ou não num segundo trabalho, isso logo se verá! Mas posso adiantar que o próximo álbum já tem nome/título, embora provisório, eheh! Esperemos que o mundo não acabe em 2012!!

Como têm corrido as coisas a nível de palco? Conseguem sentir um bom retorno por parte do público? Tem dado para perceber como “Rhythmotion” tem estado a ser recebido?

Helder: Fizemos algumas datas desde que saiu o nosso álbum de estreia e o feedback tem sido muito bom, mesmo tendo passado pouco tempo desde o lançamento. Agora que o disco começou a passar nas rádios e a chegar às mãos do pessoal, contamos sentir um retorno ainda maior e com mais energia. “Rhythmotion” é um álbum com muita “Innergy”, tanto em disco como ao vivo, nós senti-mo-la e estamos sempre prontos para dar o melhor. Esperamos que o público a sinta também!



No que diz respeito a concertos, uma vez que frequentam os dois lados da barricada, em cima do palco como banda e lá em baixo como público, como encaram o estado actual das coisas a nível nacional?

Ruy: A oferta de concertos hoje em dia é brutal! Basta olhar a agenda de um qualquer site e, tanto a nível de bandas nacionais como internacionais que visitam o nosso país, a oferta é vasta e diversa. Penso que isso também se prende com a necessidade que as bandas/editoras sentem hoje em dia em compensar as fracas vendas, nomeadamente, de CD’s. Acho que é por isso que existem tantos concertos em Portugal, principalmente de bandas estrangeiras, pois é um meio alternativo de ir buscar alguma receita. Mas chegamos a um paradigma... A oferta é tanta (e a crise também) que muitas vezes, os concertos estão às moscas! Em termos de organização e marcação de concertos por parte de bandas underground, por vezes não é fácil! Temos alguns sítios fixos e direcionados para o Metal e depois alguns bares que vão recebendo um ou outro concerto. A grande diferença está no espírito D.I.Y. (que tem dado bons resultados) com muitos concertos organizados pelas próprias bandas, várias iniciativas, festivais, etc. Como a montanha não se desloca - nunca se desloca - vamos lá nós! Esse tem de ser o espírito!

Recuemos aqui um pouco, para mencionar os vossos outros projectos, até porque o vosso baixista, João, também divide o seu tempo com outra banda (Lost Soil). Aliando esse factor aos empregos de cada um, como se faz a gestão do tempo nos Machinergy?

Helder: Ora aqui está um elemento muito importante para uma banda, o tempo, principalmente, para quem tem filhos como é o meu caso. E também temos as nossas vidas profissionais. Há que saber lidar com a situação, há tempo para tudo. Temos que aprender a gerir tudo. Machinergy tem uma disciplina natural, não por obrigação, mas porque gostamos do que fazemos. Se às vezes surgir um contratempo e por alguma razão não podemos ensaiar, temos espaço e compreensão para lidar com isso. Machinergy é muito importante para nós, mas há outras razões que também fazem parte da nossa vida e ao contrário passa-se o mesmo, quando Machinergy precisa de mais atenção, tanto a família e até mesmo o emprego apoiam. O importante é estar a cem por cento em cada aspecto, no seu tempo. Em relação ao João e aos Lost Soil, tentamos sempre conciliar os timings para que ninguém saía prejudicado. Os outros projectos que eu e o Ruy temos, apesar de os levarmos a sério, são bandas paralelas e que de certa forma ocupam-nos num segundo plano, sempre que temos um “tempinho” expelimos para fora outras energias que não têm lugar nos Machinergy, mas temos vontade de as mostrar e por isso, para já, vamos registando alguns temas que nos dão muito gozo. É preciso é haver energia, eheh!

Energia e muita dose de paciência, pelo que percebo… Já agora, tendo em conta que a entrada do João é relativamente recente e que na sua outra banda ocupa as funções de guitarrista, como foi o seu processo de integração aos Machinergy e à sua música?

Ruy: O João aparece quase como uma dádiva, eheh! A sério, foi muito complicado arranjar baixista e, na verdade, ele nem o é, por assim dizer! Como dizes e bem, ele é guitarrista nos Lost Soil mas, como todos sabemos, um guitarrista tem sempre alguma facilidade em tocar baixo (eu próprio sempre gravei o baixo em quase todas as gravações onde estive envolvido). A sua integração foi normal. Ensaiar o material, ouvir as músicas com alguma frequência, etc. Ele é de uma geração diferente mas tem bom gosto musical e apesar de não ter a nossa “velha escola”, isso nem é problema pois as “exigências” que fazemos é que goste das músicas que toca, que não seja frete, vá aos ensaios e tenha disponibilidade para os concertos e outras cenas relacionadas com a banda, nomeadamente, estar até preparado para alguns futuros desafios. Para além da parte “técnica”, é também um puto bacano! :)

De volta ao album: falem-nos um pouco da escolha das vozes convidadas para os temas ‘Godus’ (Célia Ramos, Mons Lvnae) e ‘Incendiário’ (Hugo Rebelo, ex-Simbiose)!

Ruy: As colaborações surgiram, em primeiro lugar, pela voz de cada um deles, pela sua qualidade. O Hugo tem aquela voz inconfundível, gutural, mas não um gutural qualquer. Sempre fui fã de Simbiose (em especial da voz dele) e, com o tema “Incendiário”, ainda por cima em português e com toda a carga inerente, a ideia surgiu quase naturalmente pois é uma música com um lado mais punk de Machinergy, mais crossover. Como já nos conhecíamos de concertos, o convite foi lançado e prontamente aceite! É uma pessoa com uma grande onda, sem vedetismos e que participa nas coisas de alma e coração para além de estar sempre a contribuir com ideias! Sobre a Célia, foi relativamente semelhante. Quando a música “Godus” começou a ganhar forma, aquela ideia para a voz surgiu. Queríamos algo suave, algo que transmitisse equilíbrio pois a música fala disso mesmo, o alcançar uma certa paz numa outra dimensão, preferível a sofrer eternamente, ou seja, estamos a falar de morte como alívio em situações de extremo sofrimento. A Célia aceitou prontamente e foi um doce, eheh! Ela é impecável e tem uma voz que te deixa completamente de queixo-caído, tipo “... não canto mesmo nada...”, eheh! Basicamente, a música foi andando e ela foi pondo e sobrepondo a voz e, no final, o resultado não podia ser melhor! Foi um dia muito fixe com ambos e jamais esqueceremos a sua ajuda e disponibilidade! Bem-hajam!

Existem planos para mais colaborações futuras com outros nomes da cena portuguesa ou internacional?

Ruy: É muito provável que venha a acontecer! Andamos já com algumas ideias para o material novo, algumas eventuais participações externas, já se falou nisso. Mas gostamos de falar e discutir as coisas com calma e tempo, deixá-las amadurecer e ver se faz mesmo sentido determinada ideia. De qualquer maneira, acho que os convidados especiais, são uma mais valia e dão outro colorido a um disco.



Mas existe algum nome com o qual teriam um prazer especial em trabalhar?

Ruy: Nomes existem sempre! Mas não é por ter mais ou menos “nome” que nos interessa. Será mais porque nos diz realmente algo e à respectiva música onde poderá colaborar ou alguém que nos ajudou a crescer enquanto músicos, fãs, etc.

Mencionaram à momentos o significado do tema ‘Godus’. Existe importância para os Machinergy em atribuir significados específicos ao conteúdo lírico das vossas músicas, em oposição a outra prática comum que passa por escrever de forma filosófica deixando o significado aberto à interpretação pessoal?

Ruy: Temos títulos e conteúdos directos, sem espinhas, mas também temos algumas coisas um pouco mais “filosóficas” ou que poderão criar algumas interrogações. Acima de tudo, gostamos de, mesmo numa letra supostamente directa, não esgotar essa mesma letra aí. Podes escrever especificamente sobre algo, com um determinado alvo, mas com essas palavras carregadas de outros significados e que até poderás aplicar a outros assuntos. Por isso é que não gosto muito de escrever sobre espaços temporais, tirando uma ou outra situação mais tocante e/ou pessoal, como até é o caso da “Godus”, mas mesmo nessa música, apesar de ser sobre algo triste, a tua interpretação pode ser variada. Podes continuar com tristeza ou veres uma “luz ao fundo do túnel”. Acima de tudo, gosto de escrever sobre algo contínuo, em movimento. Algo que sempre existirá, por assim dizer. No fundo, essa é também a magia da música, ficares ali a pensar um pouco sobre a música e tal... Já escrevemos sobre situações específicas no tempo, acontecimentos, etc. Foi fixe mas acaba por ser estranho e torna-se datado com o passar dos anos.

As letras de MACHINERGY presentes no vosso album vão oscilando entre o inglês e o português, trata-se de uma escolha precisa e consciente ou está de alguma forma relacionada com o feeling que cada tema vos transmite?

Ruy: Acho que é mesmo a última que referiste. Não há nada premeditado em termos de idiomas, as coisas acontecem naturalmente. O inglês porque é algo que já está entranhado em todos nós, globalmente. E até vejo isso de forma muito positiva, é uma maneira de todos poderem entender a tua mensagem. O português, quando as palavras são bem escolhidas e colocadas, funciona maravilhosamente! É uma língua muito forte e óptima para o estilo mais pesado, ao contrário do que alguém possa pensar. Basta olhar para uma banda como Bizarra Locomotiva ou Dr. Salazar. É a perfeita simbiose!

Resumidamente, qual será então o feeling que os MACHINERGY sentem para o seu futuro enquanto banda?

Ruy: Pessoalmente, desejo é que a banda não impluda, como aconteceu no passado com outros projectos. A partir daí, é sempre a trabalhar e penso que teremos todas as condições para dar os passos que pretendemos. Um de cada vez mas com objectivos bem definidos. Desta vez não é para brincar e perder tempo como no passado. Nós já não vamos para novos mas nunca é tarde e, acreditando e trabalhando diariamente para esse fim, penso que as coisas darão os seus frutos. É como escavares um buraco, pode demorar, mas há-de aparecer água! ;)

Agradeço imenso o vosso tempo e disponibilidade, se desejarem acrescentar algo mais, força com isso!

Ruy: O prazer foi todo nosso. Agradecemos o teu apoio aos Machinergy, algo que não esqueceremos. ;) Foi uma entrevista interessante e bem longa, a mais longa até agora, eheh! Tudo de bom para ti e... morde essa bolacha!! :)

www.myspace.com/machinergy

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

entrevista: UTOPIUM

Alguns já devem ter reparado nestes cinco amigos, em cima de algum palco, a devastar tudo à sua passagem com o seu universo para onde convergem os caminhos do grindcore ou do crust ou até mesmo do sludge, mas onde o denominador comum se apresenta como um reflexo de música extrema, óptimo ingrediente para exorcisar alguns demónios e afugentar muitos outros!
Ao primeiro sintoma de curiosidade, Rizzo (voz) e Tiago (guitarra), trataram de trazer algum esclarecimento a certas questões





(MeB) Vamos lá a pôr isto em pratos limpos: qual é a expressão que melhor pode ser empregue para definir a música que fazem? Utopium assumem-se grindcore, crustcore ou bujarda-filha-da-putice?
Tiago (T) Os Utopium formaram-se com intuito de tocar musica extrema onde a base de influências provinha de bandas de grindcore. Desde as bandas mais old school, como Napalm Death, Carcass, Brutal Truth, Discordance Axis, até às mid e new school como Nasum, Rotten Sound, Insect Warfare, Kill The Client, Mumakil, Pig Destroyer. Pelo caminho, e como os géneros andam um pouco de mão dada, começámos a acrescentar influências crust e sludge ao nosso som. “Bujarda-filha-da-putice” não me parece mau, mas sinceramente isso pode ficar ao critério de quem nos ouve, até metalcore já nos chamaram, por isso..!

Uma vez que a descarga vocal dos Utopium é de tal forma agressiva, torna-se um pouco complicado discernir a mensagem que existe agregada aos vossos temas! Pessoalmente não creio que falem sobre arco-íris e campos em flor, mas nada como o vosso esclarecimento para ficarmos a conhecer melhor o vosso universo: com quem é que vocês estão zangados?
Rizzo (R) Com tudo e todos, incluindo nós proprios. A verdade é que muito do conteúdo lírico provém de introspecções ou consciencializações perante um determinado tópico, sempre algo inerente à vivência em sociedade e os seus comportamentos anexos, seja pela perspectiva dum indivíduo ou simplesmente em narrativa. Pessoalmente não tenho tanto o pretensão de soar crítico, mas mais de criar cenários, uns mais reais outros mais hipotéticos, desde questões psicológicas a problemas sociológicos. Aliado a frequentes jogos de palavras e outras figuras não se torna de todo algo directo, antes de se levar a descortinar, fora o que fica nas entrelinhas.

Como é que se chega a uma banda como os Utopium? Quero dizer, qual foi a principal motivação para criar esta banda e o porquê da opção de a tornar tão extrema?
(T) Nós juntámo-nos tendo em vista tocar um género de música que gostamos, neste caso o grindcore, logo já sabiamos à partida que seria extremo. Com o passar do tempo, depois de ensaios, concertos e um certo crescimento dentro da banda, obviamente que há sempre aquele desejo de personalizar o nosso som, de lhe dar uma identidade própria. Sendo o grindcore um estilo de música muito “open minded” (quer as pessoas acreditem ou não), nunca descartámos a hipótese de incluir elementos diversificados nesse processo de personalização, como tem acontecido.



Como é que se compõe para uma banda como a vossa? Como é que são tomadas as decisões quando toca a escolher o caminho que um tema deve levar? É um processo consciente ou deixam que a criatividade vos leve até onde calhar?
(T) Normalmente um dos membros aparece com uma ideia, um riff, uma batida e partimos daí. Tentamos fazer as coisas de modo a que fiquemos satisfeitos com o produto final. Geralmente quando finalizamos uma música e a tocamos milhares de vezes, se olhamos uns para os outros e ficarmos “Whoa, esta música está do caralho!”, então siga, está feito! Pode haver alguns momentos (se calhar até muitos!) de improvisação, sobretudo quando são cenas mais lentas, em que simplesmente nos deixamo ir.

Que papel gostariam que a vossa música tivesse no ambiente que vos rodeia?
(R) Musicalmente pretendemos impor a nossa afirmação, algo que leve as pessoas a sentirem, tal como nos toca a nós; afinal é esse o papel libertador da música, a partilha de emoções e abertura de susceptibilidades. Que dê para transpor a fúria quando necessário, tanto quanto a compreensão. Quando alguém se identifica com o género, estilo, ideia, mensagem, tanto melhor.

São da opinião que vivemos num mundo de extremos ou acreditam no poder da moderação?
(R) Vou ter que concordar com ambas as partes, até pelo tão singelo exemplo do género que tocamos, com as influências que misturamos, e com a posição que tomamos: um estilo extremo, frenético, com toques do seu antagónico, lento, e no entanto equilibrado. De modo mais alargado, mesmo nós, o que implicamos na nossa música, como exemplo em palco, torna-se um meio de descarga. Em lato sensu, que os extremos existem, é certo, seja meramente de gostos a ideais, deve é persistir alguma mediação dos mesmos, ou como dizia o grego: no meio está a virtude.

Já tive oportunidade de vos ver ao vivo algumas vezes e uma característica que apreciei bastante é o facto da vossa entrega ser a mesma, quer toquem para um público escasso ou para uma multidão considerável! De onde vem toda essa motivação e energia? É fácil mantermo-nos motivados a fazer música como a vossa numa cena como a nossa?
(T) Tal como disse, e lá vem o cliché, os nossos primeiros fãs somos nós próprios. Tocamos e compomos musica que nos faça sentir satisfeitos! Acreditamos na mesma e sabemos que para nós ela tem algum valor. Obviamente quando chega a tocar ao vivo temos a nossa maneira de ser porque é o que ela nos faz sentir. Se estão 10 pessoas ou 100, paradas ou a mexerem-se, é-me indiferente, eu curto a música à mesma. Claro que é sempre bom receber uma resposta positiva do público nos concertos, a qual agradecemos, mas se o público não expressar entusiasmo não vamos ficar tipo estátuas em cima do palco, até porque a entrega de energia, para depois a receber de volta ciclicamente, deve partir da banda e não do público.

Quais são as maiores utopias na vossa vida?
(R) Remato com três: o conceito de verdadeira e derradeira satisfação pessoal, num sentido de plenitude; o sentido de integração e homogeneidade agregado a um critério de heterogeneidade; e, aquela que considero a base, a compreensão e aceitação humana pelo próximo.

A edição da vossa demo tratou-se de uma afirmação de presença ou o arranque para mais e melhor? Existem planos para dar continuidade àquela gravação?
(T) Essa demo tratou-se duma experiência, por assim dizer. Quando já tinhamos algum tempo de ensaio e algumas músicas, decidimos gravar um ensaio para ver como soaria. No final, como até ficámos surpreendidos com a gravação, mais tarde achámos uma boa ideia dar a conhecer assim algumas músicas, metendo-as para download e vendendo cópias nos nossos concertos. Claro que no futuro haverá mais e melhor! Gravámos este ano e editaremos no início do próximo o nosso EP de estreia, “Conceptive Prescience”, que conta com sete novos temas – um deles já colocado no MySpace. E duas das três músicas que constam na demo vão ser incluídas na proxima gravação, que iremos fazer durante o próximo ano.



Vocês contribuiram com uma versão do tema “My Philosophy” para um tributo a Nasum a ser lançado pela editora alemã Power-It-Up (juntamente com nomes como Misery Index, Leng Tch’e, The Arson Project ou Kill The Klient, entre muitos outros)! Como é que surgiu essa oportunidade? Que critério esteve por trás da escolha do tema que gravaram?
(T) Curiosamente a editora estava a aceitar alguns pedidos de bandas. Nós entrámos em contacto e eles aceitaram. Não houve nenhum critério propriamente dito, um dia a namorada do nosso baterista sugeriu-lhe fazermos essa cover, ele propôs-nos a ideia e fizemos. Como praticamente qualquer música desse album (Inhale/Exhale) é uma valente bujarda..!

Esse tributo tinha edição prevista para Novembro 2009! Há novidades acerca desse assunto?
(T) Sim, aliás, a editora já nos enviou toda a informação e já fizemos a nossa encomenda de cópias. Descobrimos, no entanto, que a versão que foi incluída é dum mix anterior que tínhamos feito e não a versão final que consta no MySpace, por isso é normal que esta última ainda apareça escondida algures..!

Será óbvio de perceber que são admiradores do trabalho de Nasum! Que outras bandas entram nos vossos ouvidos?
(T) Tanta coisa... Tirando as bandas que já referenciei diria Siege, Dropdead, Infest, Godflesh, Black Sun, Skytsystem, Trap Them, Magrudergrind, Terrorizer, Extortion, Swans, Killing Joke, Joy Division, Black Flag, Voivod, Iron Monkey, Charger, Eyehategod, Complete Failure, Wolfbrigade, Discharge, Extreme Noise Terror, Disfear, Converge, Gaza, Mastodon, High On Fire, Mindrot, Darkthrone, Shining, Hatred Surge, Unearthly Trance, Today Is The Day, His Hero Is Gone, Tragedy, Virus, Municipal Waste, D.R.I., Cursed, Breach, Faith No More, Neurosis, Isis, etc. De grind a powerviolence, crust, sludge, doom, black metal e sei lá mais o quê...

Tendo em conta que o universo grind-crust é rico em produzir colaborações e lançamentos em formato split, quais seriam para vocês as parcerias de sonho? Com quem é que os Utopium gostariam de partilhar uma gravação?
(T) Deixo o meu top 3:
1. Trap Them
2. Rotten Sound
3. Looking For An Answer


Antes de vos correr daqui para fora, algo mais que queiram acrescentar?
(Tiago) Nada de mais, agradeço o apoio da tua fanzine pelo nosso som.
(Rizzo) E quem nos lê, que fique atento ao muito que nos e vos aguarda!

www.myspace.com/utopiumgrind
utopiumgrind@gmail.com

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

entrevista: CARLOS FREITAS (Notredame Productions / Side B Lounge Live Club)

As probabilidades de já terem assistido a pelo menos um concerto organizado pelo convidado das próximas páginas são elevadas, uma vez que ele é o responsável pela promotora Notredame Productions, e se ainda não se encontram entre os muitos que já fizeram, pelo menos, uma visita ao espaço gerido por ele, o Side B Lounge Live Club, em Benavente, está no momento do Carlos Freitas vos abrir as portas, mais que não seja para o jogo de perguntas e respostas que se segue!



Conta-nos um pouco do teu percurso até chegares á Notredamme Productions!
Há cerca de 15 anos atrás, fundei alguns projectos musicais, nos quais eu próprio desenvolvia o trabalho de booking! Infelizmente naquela altura eram poucas ou quase nenhumas as oportunidades para tocar ao vivo, não havia muitas casas a receber bandas e concertos, e as poucas que haviam, era difícil lá tocar! Ou eras realmente bom no que fazias, ou tinhas nome, ou tocavas covers, de outra forma era quase impossível, daí, a forma mais fácil de tocar ao vivo, era organizar os nossos próprios concertos…
Entre 1996 e 1999 (altura em que duraram os projectos aos quais tocava), organizei vários concertos, todos eles locais (na zona onde cresci, conselho de Alenquer, Ota, etc), nos quais reunia as bandas também locais da altura, sempre com condições escassas, não tinhamos apoios, tudo à nossa custa, parte dos eventos nem P.A existia, fazíamos a festa apenas com o nosso backline!
Eram outros tempos, em que um “pseudo-festival” local, com cerca de 12 bandas a tocar num só dia, metia mais de 200 pessoas, com inicio a meio da tarde, e só acabava quando as autoridades nos expulsavam do recinto!
Depois dessa época, estive uns tempos afastado do meio, sem bandas, sem produções, etc...
Em 2004, com a abertura de uma casa na Vila de Alenquer (extinto RockHouse), tive um convite e oportunidade para voltar a organizar eventos e fazer parte do booking dessa mesma sala, foi aí que fundei a Notredame Productions, com o intuito de dar oportunidades às bandas da altura, a tocar naquele espaço. Voltei assim a organizar eventos, agora com mais condições, e com bandas conceituadas da nossa praça.
Entretanto, o “bichinho” de organizar, começa-nos a “aquecer”, a “viciar”, e chega-se a um ponto que queremos e precisamos de organizar mais, e mais… (penso que isto acontece com todos os promotores) , resolvi estender as produções para outros locais, comecei a organizar eventos também nas cidades de Caldas da Rainha, S.Martinho do Porto, Vila Franca de Xira, e mais tarde em Lisboa, Linda-a-velha, Corroios, Cacilhas, etc… Aqui já com nomes internacionais.

Como surgiu a ideia de criar a Notredamme productions e a chegada ao Side B bar?
A Notredame Productions, surgiu da forma que anteriormente descrevi… o nome, esse deve-se ao facto de ser o mesmo de um espaço de “culto-privado”, que mantinha na época, um bar privado, apenas para amigos e convidados, cujo o nome era esse mesmo “Notredame Bar”, e surgiu se calhar pelo fascínio que sempre tive por catedrais, obras primas históricas, e a própria Catedral NotreDame, achei que devia dar o mesmo nome à promotora, não me perguntem porquê...
O Side B, basicamente é um sonho realizado, foi algo que sempre sonhei ter, e sonhei fazer… ter uma casa de espectáculos ao vivo…
Surgiu a oportunidade, na altura certa, e no momento certo, mesmo sabendo que era um “suicídio” enorme abrir uma casa de concertos no “fim do mundo”, a necessidade de ter um espaço para organizar os meus próprios eventos era muita, e sem ter sempre o inconveniente de pagar alugueres absurdos, licenças, pessoal etc, etc.. factores que tornavam complicada a hipótese de se organizar um evento sem perder dinheiro! Sempre lutei por um objectivo, por aquilo que gosto e quero, e nunca me dei mal, sabia que mais tarde ou mais cedo iria concretizar este dito sonho, apareceu a oportunidade, e atirei-me de cabeça.


Qual o cartaz que tiveste que te deu mais prazer e orgulho até agora, e porque?
É uma pergunta difícil de responder, visto que tenho orgulho em todos os cartazes que organizei até à data de hoje, desde um pequeno pseudo-festival que fiz em 1996, com 14 bandas locais num só dia, em que duas horas antes da primeira banda subir ao palco, o mesmo não existia, e que entre a ajuda do publico conseguimos improvisar um palco com paletes, madeira e barris de cerveja ou, por exemplo, o concerto de Samael, banda que oiço desde os meus 17 anos, e jamais imaginaria um dia conhecê-los pessoalmente, passar 4 dias a trabalhar com eles... Todo este trabalho, é um prazer e um orgulho de se fazer…

Com todos os fins-de-semana ocupados a orientar eventos, como consegues conciliar com a tua banda?
Na banda em que presto funções actualmente (VS777), a minha participação surgiu de um convite de um grande amigo, o mentor do projecto! Na altura estava sem banda, e com vontade de voltar a tocar, aceitei o convite com muito gosto, não só porque adorava o som da banda, como porque à partida era um projecto que não me iria ocupar muito tempo! Trabalhamos de forma fácil e compatível para todos, visto que todos nós temos vidas pessoais demasiado ocupadas, família, etc.. Faz-se quando dá, não metemos a nossa vida pessoal, profissional à frente do projecto… Para além de que a minha função na banda, não é compor, é mais tocar o que vem sendo feito!

Todos os fins-de-semana tens oportunidade de avaliar como está o público ligado ao metal em Portugal! Na tua opinião, achas está mais apologista de sair para ver concertos e conhecer bandas novas?
Depende! Outra pergunta difícil de responder! Se há coisa que não consigo perceber bem, é o público de hoje em dia, pois temos muitos tipos de público! Existem os que não dão dinheiro para assistir a concertos underground e dão fortunas para alimentar festivais com 80 mil pessoas, outros que apoiam o underground mas só vão ver o estilo que lhes agrada, outros que só vão se for de borla, outros que só vão para apoiar a banda do amigo, e o público do “clic” que só levanta o cú da cadeira do computador para ver o concerto que mais tópicos de conversa tem nos fóruns de música, e um pequeno número de resistentes que só não apoiam mais porque financeiramente não o podem fazer…
Resumindo, hoje em dia há muita oferta, muita banda a querer tocar ao vivo, muitos concertos, muitos estilos, e o público que para além de estar cada vez mais esquisito e exigente, acaba por não chegar a tudo e a todos, mas ainda se conseguem fazer boas salas, depende das bandas em cartaz, e da sorte...

O que gostavas de ver mudado no cenário metaleiro português?
Menos ganância!! Mais união!!!

O Side B comemorou em Setembro o 1º aniversário com os Cryptor Morbious Family e Bizarra Locomotiva no cartaz! Porque escolheste essas bandas para tal comemoração?
Bizarra Locomotiva porque é uma banda que sempre gostei muito, e os seus espectáculos ao vivo são algo digno de se ver e mostrar ao publico, é outra dimensão!
Cryptor Morbious Family, porque acredito na força de vontade enorme de todos eles, de quererem concretizar um objectivo, um sonho... e lutam por isso, insistem, e esse é o caminho certo para quando se quer algo, é com um prazer enorme que dou oportunidades a bandas que querem e lutam para crescer e não aparecerem já crescidas!


Alguma vez tiveste vontade de desistir, ou mesmo depois de uma noite fraca tens a força para pensar que vale sempre a pena lutar pelo metal português?
Lutar pelo metal português, não é propriamente o meu objectivo! Eu luto por mim, é o meu trabalho, vivo disto, embora no trabalho que desenvolvo, acaba por ser útil para as bandas e também para o metal e rock português! Actualmente não trabalho apenas com bandas de metal português, já fizemos bons cartazes de bandas internacionais e muitas coisas dentro do rock!
Infelizmente já tive momentos assim, mas também já tive momentos bons, e a coisa vai-se equilibrando, o lema é insistir, não desistir… acreditar que o próximo correrá melhor, corrigir os erros, aprender, melhorar… se temos oportunidade de o voltar a fazer, porque não arriscar? … é um pouco o que se passa na realidade. ( o tal “bichinho” não nos deixa parar)


De tantas bandas portuguesas com enorme potencial e qualidade que passaram por os teus eventos em 2009, quais foram as que te interessaram mais?
Gosto de muitas bandas portuguesas que por lá passaram, aliás, potencial e qualidade são duas regras indiscutíveis para a contratação de qualquer uma! Foram poucas as bandas que me desiludiram com actuações ao vivo, claro que umas mais que as outras, mas isso já tem um pouco a ver com o meu gosto pessoal, que pode agradar a uns e desagradar a outros… Seria mais fácil questionarem, por exemplo, de todas elas que lá passaram, quais pretendo voltar a contratar… Poderei assim mandar alguns nomes que me ocorram… Phantom Vision, F.E.V.E.R, Secrecy, Bizarra Locomotiva, Artworx, Inhuman, Heavenwood, Why angels Fall, Process of Guilt, Hordes of Yore, Switchtense e muitas outras mais que certamente iremos voltar a trabalhar no futuro!

www.myspace.com/sidebbar
www.myspace.com/notredameproductions
carlos.notre@gmail.com
sideb.benavente@gmail.com

(Nota: esta entrevista foi elaborada e conduzida pelo pessoal que responde pelo nome de Cryptor Morbious Family e será igualmente publicada na fanzine ABRIGO DOS MALDITOS! - www.myspace.com/cryptormorbiousfamily)